A localização e o clima da Arábia Saudita fazem com que possua uma grande quantidade de locais promissores para a geração de energia solar e eólica

A vida na Arábia Saudita vem há tempos sendo definida pelo petróleo que jorra no reino. Ao longo de décadas, a grande riqueza que trouxe pagou não apenas as torres brilhantes e os shopping centers, mas também bancou o setor do governo que emprega a maioria dos trabalhadores sauditas.

Agora, a Arábia Saudita está tentando atrelar seu futuro a outro recurso natural que o reino possui em abundância: a luz do sol.

O maior exportador de petróleo do mundo está embarcando, sob a batuta do príncipe Mohammed bin Salman, em um esforço ambicioso para diversificar sua economia e revigorar o crescimento, em parte colocando dinheiro em energias renováveis. O governo saudita quer não apenas remodelar seu modelo energético, mas também se tornar uma força global da energia limpa.

Alcançar esse objetivo é uma grande questão. A estratégia, porém, está finalmente fazendo progressos depois de alguns ajustes e recomeços.

Em 5 de fevereiro, Riad pressionou a empresa de energia saudita ACWA Power a construir uma fazenda solar que geraria eletricidade suficiente para cerca de 40 mil casas. O projeto vai custar US$300 milhões e criar centenas de empregos, segundo Turki al-Shehri, chefe do programa de energia renovável do reino.

Até o final do ano, a Arábia Saudita planeja investir cerca de US$7 bilhões no desenvolvimento de sete usinas solares e grandes fazendas eólicas. O país espera que os meios renováveis, que agora representam uma quantia insignificante da energia utilizada, possam representar até dez por cento de sua geração de força até o final de 2023.

“Todos as grandes construtoras estão de olho na Arábia Saudita”, afirma Jenny Chase, analista da empresa de pesquisa de mercado Bloomberg New Energy Finance.

“O país tem feito grandes planos e declarações, mas vários órgãos internos ainda não conseguiram concordar sobre a melhor maneira de proceder”, explica Chase. Ela se refere ao acordo como “o primeiro passo para criar o que espera-se seja um grande mercado”.

A Arábia Saudita talvez esteja exagerando quando se trata de renováveis. O reino adotou alvos ambiciosos de energia verde vários anos atrás, mas nenhum projeto importante foi realizado, e pouca coisa mudou.

A maior fazenda solar em operação no país cobre o estacionamento da empresa nacional de petróleo, a Saudi Aramco, em Dhahran. A apenas alguns quilômetros de uma área cercada onde fica o primeiro poço de petróleo comercialmente viável do reino, ela gera energia suficiente para um prédio de escritórios.
Ainda assim, os experimentos com energia solar têm sido um catalisador importante, e a empresa montou uma equipe de especialistas em energia renovável. A experiência ajudou a Arábia Saudita a focar em painéis solares convencionais e não em outro sistema, conhecido como concentrador solar, em que espelhos focam a luz do sol para criar calor.

A estratégia dos renováveis finalmente começou a tomar forma quando Khaled al-Falih assumiu como ministro da Energia em 2016. Falih transformou energia solar e eólica em prioridade no reino e estabeleceu uma nova unidade no ano passado para acelerar o trabalho. Grande parte dos funcionários foi tirada da Aramco.

Shehri, que trabalhou na Aramco antes de liderar o programa de renováveis do reino, diz que vem enfrentando uma tarefa “extremamente desafiadora”. Cumprir os objetivos da Arábia Saudita vai exigir contratos para uma série de novas instalações até o final de 2020. “Isso só será possível porque fizemos um trabalho anterior”, explica ele.

Vantagem
A Arábia Saudita, com seus vastos recursos de petróleo, pode parecer um defensor improvável das energias renováveis. Mas a localização e o clima do país fazem com que possua uma grande quantidade de locais promissores para fazendas de energia solar e eólica.

Os custos de instalar e operar essas duas tecnologias caíram drasticamente no mundo nos últimos anos. Isso significa que, mesmo em um país em que o petróleo é abundante, as energias renováveis são alternativas baratas e limpas para os tradicionais combustíveis fósseis.

Para o projeto anunciado em 5 de fevereiro, Riad recebeu lances para a fazenda solar, que será construída em Sakaka, no norte do país, que rivalizavam com os mais baixos já submetidos em leilões no mundo. Ao preço de US$ 0,02 a US$ 0,03 por quilowatt-hora, valor da eletricidade no atacado, a energia solar aqui poderia estar abaixo do custo da eletricidade gerada por combustíveis fósseis, diz Shehri.

Demanda
Um grande impulso para a energia solar e eólica também traria outros benefícios, permitindo que a Arábia Saudita venda uma parte ainda maior do seu petróleo.

Os sauditas dependem do uso de ar condicionado grande parte do ano, e o quentíssimo verão árabe faz com que a demanda por eletricidade exploda. Grande parte dessa energia é gerada em usinas abastecidas por petróleo. Em junho passado, essas instalações queimaram uma média de 680 mil barris de petróleo por dia, segundo dados fornecidos pelo grupo de monitoramento Iniciativa Conjunta de Dados.

Esses números — comparáveis com a produção de um país modesto como o Egito – já mostram uma queda dos quase 900 mil barris por dia em 2015, mas ainda representam dinheiro desperdiçado. Se tivesse sido vendido fora do país, esse óleo cru teria somado US$47 milhões por dia à receita do governo.

Vender petróleo internacionalmente é o principal meio para o financiamento do orçamento saudita. Os termos do leilão do projeto Sakaka exigiam que os construtores cobrissem o custo inicial da fazenda solar, em retorno por pagamentos pela energia que fornecerão à rede. Isso permitiria que a Arábia Saudita continuasse a focar em produzir e exportar petróleo enquanto faz a mudança para energias mais limpas.

Nos anos 1920, a área em torno dos escritórios da Aramco era pouco mais do que uma série de colinas rochosas. Então, uma equipe de geólogos americanos descobriu o petróleo e tudo mudou.

Dhahran hoje abriga a sede de uma das mais avançadas e prolíficas empresas de energia do mundo, com uma série de laboratórios de pesquisa, centros de treinamento e até mesmo um campo de golfe. O que antes eram vários povoados dispersos agora se tornou uma área metropolitana importante que abriga quase quatro mil pessoas.

Um dos principais planos do príncipe herdeiro para transformar a economia da Arábia Saudita envolve encontrar trabalho para os jovens. Atrair investimento para o que essencialmente é um setor que ainda não existe no reino, segundo Shehri, significa “criar empregos, criar fábricas”.

Preocupações
Ainda assim, apesar dos objetivos ambiciosos e da linguagem positiva, o processo pelo qual a Arábia Saudita vem procurando expandir sua capacidade solar e eólica tem causado preocupações.

Analistas apontam principalmente para a maneira como os líderes sauditas escolheram as empresas preferidas. Quando Riad produziu uma lista curta de duas companhias para o projeto Sakaka este mês, deixou de lado uma que apresentou um lance menor do que as finalistas, o que fez com que alguns especialistas se preocupassem com questões relacionadas à transparência do processo de licitação.

Os requisitos do uso de fornecedores locais também podem deter alguns participantes. Shehri insiste que as empresas interessadas no projeto Sakaka concordaram em gastar 30 por cento dos custos em fornecedores domésticos e espera que essa proporção aumente em novas rodadas de licitação. Várias empresas, no entanto, podem achar difícil justificar a construção de uma fábrica na Arábia Saudita apenas para construir uma usina de energia.

O tamanho do mercado saudita, porém, merece a atenção das companhias mundiais de energia renovável. Paddy Padmanathan, executivo-chefe da ACWA Power, que também possui outros projetos de energia na região, previu em uma entrevista em janeiro que, assim que as autoridades de energia do país começarem a se sentir confortáveis com as fontes renováveis, devem aumentar seus objetivos de produção de eletricidade por meios solar e eólico.

“Estou convencido de que os recursos renováveis serão os mais procurados no futuro”, afirmou.

Foto: CHRISTOPHE VISEUX/ NYT
Fonte: Gazeta do Povo

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