Pesquisa realizada pela Accenture Strategy, em parceria com a FGV Energia, aponta o futuro dos veículos movidos a energia elétrica no país

O setor de transportes é um dos principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. Com a ratificação do Acordo de Paris, vários países estão se mobilizando para minimizar os impactos do aquecimento global no planeta. Uma das maiores apostas é o carro elétrico, alternativa com emissão quase zero de poluentes e capaz de reduzir a demanda por combustíveis fósseis. A consultoria Accenture Strategy, em parceria com a FGV Energia, publicou um estudo para avaliar as oportunidades e os desafios da implementação dos veículos movidos a eletricidade no Brasil. De acordo com o levantamento, o mercado brasileiro tem potencial para vender 150 mil unidades de carros elétricos por ano – cerca de 7% das vendas totais de automóveis em 2016.

Em 2017, foram vendidos 3.296 híbridos e elétricos – número ainda insignificante diante dos 2,239 milhões comercializados, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

A curto prazo, entretanto, os veículos elétricos não são uma opção lucrativa para as montadoras, principalmente devido ao custo das baterias. O valor do componente pode chegar a 50% do valor total do carro. Sem contar que o preço desse tipo de veículo é alto. O BMW i3, por exemplo, único com motor 100% elétrico vendido no Brasil, custa entre R$160 e 180 mil.

O alcance do mercado, portanto, se restringe as classes A e B no país. O estudo chegou a essa conclusão ao considerar que apenas 2,2 milhões de brasileiros declaram ter renda bruta superior a 20 salários mínimos e que cada indivíduo com esta faixa de renda compra, em média, um automóvel a cada cinco anos, e, um terço deles opta por modelos elétricos.

Segundo Bruno Falcão, gerente da Accenture Strategy, a maior adoção dos carros elétricos no país depende diretamente das indústrias automobilística, que vai fazer a transição da produção de veículos movidos a combustíveis para os elétricos; de utilities, que vai oferecer e distribuir os postos de recarga da bateria para motores elétricos; e, de combustíveis, que vai produzir fontes de energias renováveis combinando etanol e biocombustível.

“O Brasil não pode ser apenas expectador das inovações da indústria automobilística. É preciso se posicionar: oferecer subsídios às montadoras, incentivos fiscais para reduzir o custo de aquisição do veículo elétrico e criar um sistema de recarga eficiente, o que irá aumentar a sua atratividade a longo prazo”, afirma Bruno Falcão. Na Noruega, por exemplo, a venda de veículos elétricos e híbridos ultrapassou a de carros a diesel e gasolina com a redução de impostos e, a meta é comercializar apenas os movidos a eletricidade após 2025.

Por enquanto, o governo brasileiro concede a isenção do imposto de importação para os carros elétricos e redução da alíquota de 35% para até 7% aos híbridos. A cidade de São Paulo, por exemplo, oferece isenção do rodízio municipal e desconto de 50% do IPVA (Imposto sobre a Propriedade Privada de Veículos Automotores) de elétricos com preço até R$150 mil.

Em 2018, passa a vigorar o Rota 2030, regime automotivo que irá substuir o Inovar-Auto, e a previsão é que o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) seja reduzido de 25% para 7%, mesma alíquota aplicada sobre carros com motor 1.0, segundo informou o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) também anunciou que irá regular o fornecimento de energia a veículos elétricos ainda este ano.

As medidas pretendem incentivar o comércio dos veículos movidos a eletricidade no Brasil. No entanto, a reconfiguração da cadeia produtiva também exige a criação de novos modelos de negócios para que a mobilidade elétrica conquiste o mercado e os consumidores. É preciso investir em motores elétricos, produção de baterias, inversores de potência e infraestrutura de recarga. Em São Paulo, por exemplo, existem apenas 27 eletropostos de carros híbridos e elétricos, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

Como atender essa demanda requer investimento e tempo, lembra Falcão, o Brasil deveria aproveitar seu potencial na indústria de biocombustíveis e investir nos híbridos flex, que usam etanol e biocombustível – como ponte para a eletrificação. “A curto prazo, é uma solução mais viável até que a tecnologia de modelos 100% elétricos se torne mais acessível por aqui, o que deve ocorrer nos próximos 10 anos”, aponta Falcão.

A frota mundial de elétricos e híbridos passou de 2 milhões de veículos no ano passado, segundo o estudo da Accenture Strategy e da FGV Energia. A previsão é que chegue a 13 milhões até 2020 e, em 2030, a 140 milhões, ou seja, 10% da frota total de carros.

No futuro, a tendência é que a procura por veículos elétricos cresça no Brasil, devido à preocupação com o meio ambiente, o custo-benefício – eficiência do motor, gastos com combustível e manutenção – e a mudança no comportamento dos consumidores, que passarão a ver o carro mais como serviço do que um bem material. Ao invés de economia, conforto e design esportivo, irão procurar um veículo que os permita relaxar, socializar, trabalhar e se divertir enquanto se locomovem. Os veículos autônomos também devem se popularizar nas próximas décadas, uma vez que eles atendem aos novos critérios de compra.

Fonte: Época Negócios

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